Parte 2
Na cultura do povo Inca, o Amauta é o filosofo, sabedor, testemunha dos
tempos desde a criação do mundo! Não lhe agrada qualquer menção em chamá-lo de
feiticeiro. Esse era o título de Ñauparruna, personagem do romance boliviano
Manchay Puytu: el amor que quiso ocultar Dios.
Inti é o Deus-Sol e Killa a deusa-Lua, irmã e esposa do Sol. Quando o
povo quéchua funda seu Império, o seu representante maior é o filho do Sol: o
Inca. E seus súditos, os Incas. O Amauta vêm desde a criação do mundo, é
descendente dos Gigantes.
Numa analogia com a mitologia grega, que é a mais estudada pelo ocidente
(ainda, infelizmente), os Gigantes queriam o poder de Deus, o Pachacámaj.
Subjugavam todas as tribos e construíam monumentos, quartéis, templos e
moradias tão grandes que acreditavam se equiparam ao grande criador. Até aí,
tudo bem, Pachacámaj os deixava na grande ilusão de poder. Entretanto, a partir
do momento que os Gigantes não levavam suas esposas quando invadiam as tribos,
estimulando a relação sexual homem-a-homem, e por isso, impedindo a procriação,
o grande deus acabou com essa empáfia e despejou uma tempestade de fogo sobre
as aldeias.
A geração de Gigantes foi dizimada, a não ser um, que ousou ainda mais em
sobreviver ante a fúria do Deus. Este sobrevivente haveria de ser punido, não
com a morte, mas com a semelhança física de seus ex-subjugados, ou seja, ser
transformado em ser humano e viver para sempre. Sua missão: alertar aos homens
que não poderiam mais ousar contra o poder divino. Testemunha dos tempos e do
sofrimento dos povos, o Amauta.
Ñauparruna dizia que para saber o futuro tinha que ver o passado. Aí que
está nosso foco etílico nesse pequeno artigo: como é que eles se lembravam do
passado e da vontade dos deuses em relação à pessoa que iria buscar a verdade
com ele?
Através (literalmente) de boas doses de aguardente de milho e da chicha,
uma bebida fermentada também do milho e de outros cereais! Juntando as sorvidas
da birita com a disposição das folhas de coca sobre um tecido chamado phullu, o
passado da pessoa explicaria o que estava reservado para sua alma nos próximos
dias.
Quando a personagem do romance, María Cusilimay, vai a Ñauparruna para
saber os motivos de seus infortúnios e sofrimentos, depara-se com o velho sábio
em sua caverna, soturno e concentrado. Bastou um olhar dele para que ela
percebesse o que estava faltando, além de não cumprimentá-lo educadamente. Sem
coca nem aguardente, um risco. Pediu perdão ao sábio, mas as coisas não pareciam
boas para a desamparada María.
As oferendas são fundamentais para a sabermos a opinião dos mais
sensíveis, dos gurus espirituais. Ainda mais se nós tivermos fé!
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