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domingo, 23 de setembro de 2012

PROXIMIDADE ÁLCOOL/RELIGIÃO: As oferendas

À reestreia do Canis Familiares, um ensaio de 2007, coisa dos estudos durante o Mestrado:




Parte 2

Na cultura do povo Inca, o Amauta é o filosofo, sabedor, testemunha dos tempos desde a criação do mundo! Não lhe agrada qualquer menção em chamá-lo de feiticeiro. Esse era o título de Ñauparruna, personagem do romance boliviano Manchay Puytu: el amor que quiso ocultar Dios.

Inti é o Deus-Sol e Killa a deusa-Lua, irmã e esposa do Sol. Quando o povo quéchua funda seu Império, o seu representante maior é o filho do Sol: o Inca. E seus súditos, os Incas. O Amauta vêm desde a criação do mundo, é descendente dos Gigantes.

Numa analogia com a mitologia grega, que é a mais estudada pelo ocidente (ainda, infelizmente), os Gigantes queriam o poder de Deus, o Pachacámaj. Subjugavam todas as tribos e construíam monumentos, quartéis, templos e moradias tão grandes que acreditavam se equiparam ao grande criador. Até aí, tudo bem, Pachacámaj os deixava na grande ilusão de poder. Entretanto, a partir do momento que os Gigantes não levavam suas esposas quando invadiam as tribos, estimulando a relação sexual homem-a-homem, e por isso, impedindo a procriação, o grande deus acabou com essa empáfia e despejou uma tempestade de fogo sobre as aldeias.

A geração de Gigantes foi dizimada, a não ser um, que ousou ainda mais em sobreviver ante a fúria do Deus. Este sobrevivente haveria de ser punido, não com a morte, mas com a semelhança física de seus ex-subjugados, ou seja, ser transformado em ser humano e viver para sempre. Sua missão: alertar aos homens que não poderiam mais ousar contra o poder divino. Testemunha dos tempos e do sofrimento dos povos, o Amauta.

Ñauparruna dizia que para saber o futuro tinha que ver o passado. Aí que está nosso foco etílico nesse pequeno artigo: como é que eles se lembravam do passado e da vontade dos deuses em relação à pessoa que iria buscar a verdade com ele?

Através (literalmente) de boas doses de aguardente de milho e da chicha, uma bebida fermentada também do milho e de outros cereais! Juntando as sorvidas da birita com a disposição das folhas de coca sobre um tecido chamado phullu, o passado da pessoa explicaria o que estava reservado para sua alma nos próximos dias.

Quando a personagem do romance, María Cusilimay, vai a Ñauparruna para saber os motivos de seus infortúnios e sofrimentos, depara-se com o velho sábio em sua caverna, soturno e concentrado. Bastou um olhar dele para que ela percebesse o que estava faltando, além de não cumprimentá-lo educadamente. Sem coca nem aguardente, um risco. Pediu perdão ao sábio, mas as coisas não pareciam boas para a desamparada María.

As oferendas são fundamentais para a sabermos a opinião dos mais sensíveis, dos gurus espirituais. Ainda mais se nós tivermos fé!

Petrópolis, 6 de março de 2007. 

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